quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

TABACARIA

TABACARIA (15-1-1928 )
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
 
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?



Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.



(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.


In Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar.

2010: Revisitando...

POR TRÁS DO VÉU - PARTE UM

Mera Coincidência



Por Joel Pires



Até que ponto o jornalismo é comprometido com a investigação dos fatos e, consequentemente, com a revelação da verdade? Essa é uma das questões abordadas no filme “Mera Coincidência”, que nos faz refletir sobre o papel da imprensa nas relações entre política, mídia e sociedade. O longa-metragem apresenta um enredo inteligente e divertido. Às vésperas das eleições – faltando apenas quinze dias –, o presidente se vê envolvido num escândalo sexual que pode por fim à sua carreira política. Para livrar o chefe dessa cilada, seus assessores contratam um diretor de Hollywood a fim de contornar a situação.

A partir daí, a trama coloca o telespectador numa corrida alucinante contra o tempo para desviar a atenção pública. O cineasta  hollywoodiano inventa uma guerra contra terroristas na Albânia. A imprensa cai na isca e se mobiliza em torno da mentira. O escândalo é esquecido e a guerra passa a ser o centro das atenções. Assim, todos são manipulados para salvaguardar a honra do presidente e garantir sua reeleição. Para isso, não se medem esforços. O filme é cômico, pois os personagens passam por situações hilariantes, comandados por um egocêntrico cineasta. A ironia permeia a trama. Atitudes irresponsáveis, exageros e acontecimentos esdrúxulos dão o tom humorístico.

À parte o entretenimento, a película desfere uma crítica mordaz à imprensa, vista como indolente e crédula demais. A facilidade com que esta cai no conto revela a negligência dos jornalistas na apuração dos fatos. Há também uma sutil referência ao etnocentrismo americano, pois o povo desconhece tudo o que não está à sua volta; só enxerga o “próprio umbigo”. O produtor utiliza-se disso para inventar situações e o próprio acontecimento central do filme, a guerra na Albânia. Os americanos são enganados e ingenuamente levantam a bandeira do patriotismo. O modo de vida americano é satirizado, revelando a fragilidade das convicções nacionalistas. Também é importante ressaltar o peso da fala “é verdade, passou na televisão”, proferida por Conrad – personagem interpretado por Robert De Niro –, como se tudo denotasse veracidade ao ser veiculado na mídia, especialmente na tevê.

Dessa forma, o filme pode ser visto como uma crítica aos meios de comunicação que distorcem os fatos de acordo com os interesses políticos e econômicos de grupos ou pessoas influentes. Também é interessante notar que “Mera coincidência” se contrapõe a “Todos os homens do presidente”. O primeiro mostra o lado indolente da imprensa; o segundo destaca a investigação cuidadosa, meticulosa, realizada por dois repórteres para desmascarar o presidente dos Estados Unidos. Em outras palavras, a imprensa pode ser muito útil à sociedade, mas também pode ser nefasta ao colaborar com a injustiça, distorcendo a notícia e manipulando a opinião pública.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Um cordel sobre o Natal.

SÁBADO


Joel Pires
O sol surgiu contrariando todas as previsões. Magneticamente ativo. Impôs-se em meio ao temporal. Incandescente como nunca: a grande esfera em erupção. Havia chovido durante uma semana. Sete dias: o tempo da Criação e do descanso. Agora o astro-rei emanava seu vigor. Cintilavam raios vermelho-amarelos. Fulgurantes. Explosão de fogo. Por fim, a chuva dourada, fulminante e bela.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

EPPUR SI MUOVE


Joel Pires

Tudo se move. O movimento é uma lei do universo. A única certeza que existe é a de que tudo muda, o tempo todo. O mundo é uma grande roda viva, o dinamismo é sua característica essencial. Tudo se transforma. Até mesmo as águas mansas de uma lagoa estão em constante ebulição. No corpo humano, as células se renovam a todo o momento. No céu, as nuvens mudam a todo instante. Pego emprestada essa metáfora do amigo, poeta, escritor Geraldo Lima.
Fazendo parte deste universo, todos nós integramos esse processo de mutação. Vivemos um constante ciclo de instabilidade e de acomodação. Quando a poeira parece assentar-se, lá vem a boiada da mudança outra vez. E tudo o que era novo torna-se ultrapassado, caminho pisado. Outra trilha se faz necessária. Pois, como diz a música, precisamos todos rejuvenescer. Somos impelidos à mudança, não temos escolha: aceitamos o novo ou sucumbimos caducos. Não podemos ficar parados na estação.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bruna Caram.... sua música é um sorriso largo.

O Sonho de Darcy Ribeiro


Joel Pires

             É manhã de quinta-feira. O sol reina no azul de Brasília, sem nuvens. O clima está agradável e me convida para uma caminhada. O vento balança as palmeiras, as folhas ciciam. Por razões excepcionais, não houve aula de oficina de texto. Passeio pelo campus. Observo as construções, antigas e novas, modernas. Há canteiros de obras espalhados pela universidade. O sonho de Darcy cresceu, materializou-se no espaço que abriga o conhecimento, agora compartilhado por milhares de estudantes oriundos de todas as classes sociais.
            Trata-se da democratização do saber defendida por grandes educadores, como Paulo Freire. São as políticas de inclusão fazendo valer o ideal daqueles que fundaram a Universidade de Brasília. Autonomia, liberdade, universalidade: legados deixados por Darcy Ribeiro. Vejo o Teatro de Arena. Os ipês floresceram. Estavam aqui quando o Professor-Senador recebeu o título de Doutor Honoris Causa. Local onde o mestre, idealizador, defensor e fundador da UnB, proferiu seu último discurso nesta instituição. Comovido, ele relembrou os ideais que nortearam o seu maior projeto. Em parte, graças a Darcy, Brasília produz ciência, arte e cultura. Esse nobre professor, incansável em sua luta, nos salvou do obscurantismo. Foi uma batalha grandiosa, uma conquista dignificante. A universidade, por pouco, estaria fora dos planos da nova capital. Foi preciso a brava resistência de professores, cientistas e estudantes.
            Retorno ao ICC sul e passo pelo DCE Honestino Guimarães: uma homenagem ao estudante goiano morto em 1973, durante a Ditadura Militar. Foi presidente da UNE. Lutou contra o regime de exceção. É símbolo de resistência. Hoje o campus respira democracia. E pensar que a universidade já foi campo de batalha, que professores e alunos foram hostilizados, agredidos, expulsos, presos, torturados. Que um jovem idealista foi morto. “Desaparecido”, consta nos documentos. Período de trevas aquele, em que a ordem era a perseguição. Todavia, o que nos conforta é saber que, apesar de tudo – da repressão sofrida, dos abusos cometidos, da execução tramada –, herdamos a liberdade, mas isso não é garantia de democracia. Temos a obrigação de manter a memória e a esperança, de continuarmos vigilantes contra qualquer ameaça a direitos, seja ela qual for, venha de onde vier.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A MOSCA


Joel Pires

            Subitamente, a mosca entrou pela fresta da janela. Ao sol do meio-dia, ela parecia procurar refúgio contra o calor insuportável. A passagem daquele ser, atravessando a sala, desviou a atenção da família por um instante. Berenice, preocupada com a inesperada visita, saiu à procura de algo que pudesse ter chamado a atenção daquele inseto. Percorreu a casa espreitando tudo: indícios, odores, restos... enfim algo que, deteriorado e cheirando mal, justificasse a presença incômoda.
            A dona de casa foi até a cozinha. Verificou todos os cantos; abriu armários, gavetas; afastou móveis, utensílios, fogão, e nada. A mosca continuava voando, zumbindo. Batia na vidraça e voltava. Percorria quartos e corredor. Visitava a sala de tevê, essa deusa dos raios azulados – um escritor famoso assim se referiu a ela. Um casal comportado e asséptico noticiava os fatos do dia: acidentes, soterramentos, homicídios, infanticídios, tráfico de drogas e de influência, corrupção.
            A mosca é um inseto que possui uma enorme variedade de espécies: mosca-de-casa, mosca-varejeira, mosca-brava, mosca-da-abóbora, mosca-da-azeitona, mosca-da-carne, mosca-da-cenoura, mosca-da-madeira, mosca-das-frutas, mosca-de-banheiro, mosca-de-cavalo, mosca-de-fogo, mosca-de-ura, mosca-do-bagaço, mosca-do-berne, mosca-do-gado, mosca-do-mediterrâneo, mosca-do-pombo, mosca-do-queijo, mosca-dos-olhos, mosca-dos-chifres, e por aí vai. A mosca da Berenice é do tipo doméstica. Ela chega, às vezes, sorrateira e contamina tudo. As bactérias se proliferam. As doenças se alastram.
            A “caixa dos raios azulados” continuava ligada. Enquanto todos se dispersavam em busca do inseto tétrico, a televisão – esse dinossauro – estava ali há uma eternidade vomitando tragédias. Ainda bem que a mosca não gosta de carne viva!

Drummond: Mundo Grande

Mundo grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

RECONCILIAÇÃO

Imagem: http://i.olhares.com


Joel Pires

Hoje eu quero um texto que fale de coisas simples.
Uma oração que ressalte o valor da fé.
Um poema que enalteça a vida.
Uma crônica que descreva os primeiros raios de sol;
Que tenha o canto dos passarinhos, anunciando o novo dia,
A imagem da revoada de pardais, tão comuns;
Que tenha o som dos canários e bem-te-vis.
Um conto em que a verdade triunfe;
E que a vantagem seja a honestidade.
Um romance com personagens humanos,
Que se alegrem com a nossa vitória.
E a vitória de cada dia é respirar e ser feliz.
Hoje eu quero uma música que fale de paz,
Do amor que não exige nada em troca.
Uma canção que, mesmo não sendo nova,
Diga que amigo é coisa pra se guardar.
Hoje eu quero uma profecia que revele o Redentor,
De braços abertos, mas sorrindo...
E reconciliando-se com o mundo.
Hoje eu quero uma nova notícia:
Um pé de milho nasceu na minha rua.
Hoje eu quero a elegia do poente,
Belo e enigmático, mesmo que chova.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Segue o teu destino



Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias. (...)

(Ricardo Reis)

SÍNDROME

http://i.olhares.com

Joel Pires
            Viu-se cercado de problemas. A compulsão tornou sua vida agitada. Acumulou inúmeras tarefas. O expediente na empresa, as aulas particulares, a esposa, a amante, os filhos, as dívidas... tudo contribuía para tirar-lhe o sossego. Sua mente já não suportava tanta pressão. Até que, um dia, o inevitável. Sentiu-se mal quando voltava do trabalho. Um aperto no peito, e a parada brusca do carro. O fluxo da via foi interrompido. Era fim de tarde. Desesperadamente, deixou o veículo e correu pela rodovia acenando e pedindo socorro. Buzinas, faróis, xingamentos... e, enfim, a sirene da ambulância. Paramédicos, maca, equipamentos. O norte de Brasília paralisado. Esvaía-se o som, ficando para trás, distante, dissipando-se como as luzes em volta. A névoa cobriu-lhe a consciência. Já não ouvia nada; os olhos, fechados.  Um clarão surgiu assustadoramente. O som de trombetas despertou-o da letargia. E o encontro derradeiro. Estilhaços espalhados no caminho revelavam uma história em pedaços, como fragmentos de vida. Foi a última crise de pânico.

Há um tempo...


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia.
E se não ousarmos fazê-la teremos ficado,
Para sempre, à margem de nós mesmos."

FERNANDO PESSOA


"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida." Livro do Desassossego, por Bernardo Soares:

CALOR



Joel Pires

Devagar, a serpente chegou, entre o ciciar das folhas, atenta. No silêncio que se fez, apenas o assovio, o aviso sibilante. SSSSS. Deslizava elegantemente entre galhos, gravetos... escorria sobre os seixos com suavidade. Cautelosa. Na praia, as ondas lambiam a areia e voltavam satisfeitas. A moça estava ali, exposta ao sol. O óleo cobria-lhe o corpo sinuoso, perfeitamente desenhado. A água avançava cada vez mais. Sentia-se a leve carícia da brisa. Ela se entregava ao deleite. O sol, enciumado, abria-lhe os poros. O mar, com sua língua atrevida, aproximava-se e avançava na areia úmida.

sábado, 18 de dezembro de 2010

SINFONIA BRANCA

http://ipt.olhares.com

Joel Pires
O barulho começou com um leve ruído na cozinha. Do quarto, à porta fechada, ouvia-se o incômodo motor. Ele tentava dormir. Cobria-se, virava de lá pra cá, colocava o travesseiro sobre a cabeça, e nada. Inquietava-se. O jeito era ver o que estava acontecendo. Mas o sono voltava entre o decidir e o levantar. Fazia frio. O cansaço de um dia estressante pesava-lhe. Adormeceu.
            O som estrépito invadiu-lhe o sono. Ouviu uma estranha sinfonia: milhares de geladeiras surgiram em sua mente. Sonhou com uma amplidão congelada, uma extensa planície branca... E os refrigeradores alinhados simetricamente em filas, estrondosamente ligados, dilacerando sua alma. No dia seguinte, chamou o técnico e resolveu o problema.

TRAVESSIA


Joel Pires

João levantou-se cedo e fez a primeira oração do dia. Agradeceu a Deus pela vida. Lembrou-se da mulher e dos filhos. Pediu proteção. Ao sair de casa, elevou os pensamentos mais uma vez, e o olhar em direção ao céu. Beijou a companheira e seguiu com o filho mais novo. A jornada seria longa. Maria ficava com o coração aflito, mas a fé apascentava-lhe o espírito. A Bíblia estava aberta no salmo 25. Mulher forte, não sucumbia às dificuldades da vida; enfrentou provações: fome, doenças e morte. Guardava a saudade do primogênito, Esaú.
Seu João tocava a boiada com cuidado. Tangia a multidão. No caminho, grotões, serras, abismos, onças e o Rio das Almas. De longe, ouvia-se o aboio: aooooô! Neguinha, Mimoso, Malhada obedeciam ao comando. Desciam lentamente a serra, como num cortejo. O trieiro tortuoso, socado pelas pisadas, condicionava a passada. Zezim, o caçula, voltava e reconduzia a rês perdida, desviada. Alguns animais retesavam, resistiam: o instinto falava mais alto. Porém, na toada do berrante, iam todos, misturados à poeira e à vegetação. Não se distinguia boi, nem boiadeiro; apenas a marcha constante. Um assum-preto voou rasteiro.
O canal estava logo ali na frente, traiçoeiro, à espera da passagem. Boi de piranha: esse é o nome dado ao animal sacrificado para que a manada passe pelo rio em segurança. Neguinha deveria seguir primeiro, para a salvação dos demais. Como bode expiatório, simplesmente foi a escolhida. A água fervilhou assustadoramente. José disfarçou uma lágrima e ajudou o pai na travessia.

RETORNO


Joel Pires
            Acordou sobressaltado. O suor marejava no rosto marcado pelo susto e pelo despertar súbito. Ainda sentado na cama, recobrou o fôlego e refez-se do sonho agitado. Respirou aliviado. Lembrou-se de que havia saído para trabalhar cedo, mal começara o dia. Nem deu tempo de tomar café, ainda no bule, que sua mãe deixava no fogão. Na falta de garrafa, a bebida ficava à disposição, esquentando no borralho, bastando apenas servi-la. O costume, na estação fria, era deixar as brasas sempre acesas e a lenha por perto.
            Jonas pegou a capanga, encardida de suor, poeira e cinza. Seguiu em direção ao velho pau-de-arara, conhecido das lavouras do sertão. Ia esquecendo a marmita, mas a mãe, Dona Filó, já estava a meio caminho com a matula na mão... Novamente o susto. Uma voz brada: “Nego, acorda! Tá na hora!”. Era assim que, desde menino, o chamavam. Neguim. O apelido carinhoso pegou. Sua avó estava com o embrulho na mão. Desta vez, tomou café e saiu.
            No caminho da lavoura, a barra do dia quebrava. Jonas avista o pequeno cemitério do vilarejo onde morava. Ficava num descampado perto de uma vereda. Os buritis amenizavam a paisagem, águas brotavam à sombra. Ao longe, pôde ver, próxima à fonte do córrego que se formava, a cruz simples, embora de madeira nobre, indicando a cova onde Dona Filó descansava entre pássaros, nascentes e o arvoredo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

EXPIAÇÃO

                                                      
            Estava decidido: aquela seria a última noite de incômodo na casa de Dona Dinha. A pobre senhora já estava cansada dos barulhos que ultimamente a atormentavam. Era uma algazarra tremenda – pisadas, gritos, correria, brigas. Já não podia mais dormir. Sua vida virara um inferno. Tudo culpa daqueles que ousam perturbar o sono alheio a qualquer hora da noite. Essa rotina ruidosa massacrava a pacata dona de casa. Impossível ignorar aquela invasão domiciliar.
            A situação incômoda já se arrastava há dias e a católica senhora, na sua compostura cristã, resignava-se: esperava em Deus alguma solução. Rezava, lia a Bíblia nos momentos insones. Até fez promessa na esperança de voltar ao sossego habitual. Às vésperas de completar um mês naquele desassossego, levantou-se do pequeno altar perante o qual se prostrava todos os dias – era devota fervorosa de Santa Luzia – e se dirigiu a um pequeno cômodo onde guardava um velho baú de vime trançado.
            Ela morava só, herdeira da solidão. Tinha apenas uma irmã, com quem mantinha correspondência – a carta ainda era o meio utilizado –, e a visitava muito esporadicamente, pois tinha que deixar o interior de Minas para atravessar o norte rumo aos confins do Pará. A idade avançada não lhe permitia certas aventuras. Acostumara a viver sozinha no seu canto. A casa era pequena, o suficiente para abrigar duas camas, um armário empoeirado, algumas cadeiras, mesa, uma geladeira antiga e um velho fogão. Havia também uma tevê que ela mantinha cuidadosamente coberta com um pedaço de pano puído pelo tempo. Gostava de programas de culinária.
            A algazarra continuava lá fora. Que falta de respeito era aquela. Quanta gritaria. Difícil dormir com tamanha confusão. Mas os dias de insônia estavam contados. Finalmente Dona Dinha, a viúva que não teve filhos, resolveria de vez aquele problema. Já estava cansada de tudo. As noites sem dormir afetaram-lhe a mente, combalida pela idade. A saúde não andava boa.  Agora ela estava ali, diante do baú, ainda insone da noite anterior. As razões eram fortes. As ideias embaralhavam-se na cabeça. Um pensamento foi crescendo em meio à confusão. Tornara-se imperioso. Não teve escolha: abriu o baú e pegou um pequeno embrulho de saco de pão, dirigiu-se à cozinha e, como quem prepara um bolo, pôs-se a misturar o conteúdo a uma massa que ela retirou da geladeira.
            Evocando seus dotes de culinária, ela fez cuidadosamente pequenos bolinhos de carne. Reservou-os. Ligou o forno e, enquanto esperava o ponto ideal de aquecimento, passou um bom tempo andando pelo quintal da casa.  Após alguns minutos, ela retornou e, como a temperatura já estava boa, untou as formas, salpicou alguns temperos e preparou o assado. O dia já havia clareado e entre um afazer e outro, o almoço se aproximava. Então ela convidou os vizinhos para um banquete especial: coelho assado ao molho de laranja. Todos se deleitaram com aquela iguaria, e lamberam os dedos, menos uma mocinha triste, que ficara na sala vendo tevê: seus lindos gatos não retornaram para casa naquela noite. Findo o repasto, estando a anciã só novamente, ao fechar a porta, avistou num canto da pequena casa o indício da carnificina: um chumbinho que ela displicentemente deixou cair.